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Entrevista com o maestro Graham Griffiths

Entrevista com o maestro Graham Griffiths
realizada em 2000

Abaixo você encontra um breve currículo do trabalho de Graham Griffiths e em seguida a entrevistarealizada com o artista em janeiro de 2000.

O site da Piano Class, em nome de todos os membros de sua comunidade, agradece ao Maestro Graham Griffiths pela sua disposição e tempo empregados para nos oferecer esta entrevista.

Este é mais um dos serviços que o site da Piano Class, com a valiosa contribuição da Produtora Marina Villara, vem oferecendo aos membros da Comunidade Piano Class e visitantes do site de modo geral.

 

Regente, musicólogo, compositor e pianista

Nasceu na Inglaterra e radicou-se no Brasil em 1986 onde tornou-se conhecido por sua versatilidade musical, atuando destacadamente nas áreas de regência sinfônica e coral, música de câmara, musicologia, recitais de piano e professorado (aulas, palestras e master classes sobre composição, piano e regência). Seu repertório abrange música antiga, colonial latino-americana, clássica, romântica e contemporânea.

É formado em Musicologia pelas Universidades de Edimburgo e Cambridge. Estudou com renomados especialistas na música dos séculos XVII e XVIII como Peter Williams e Michael Tilmouth. Estudou composição com Kenneth Leighton e Edward Harper.

Foi Regente Titular da Glasgow Chamber Orchestra e Conselheiro de diversas entidades culturais das quais destacamos: Royal Scottish National Orchestra, Glasgow International New Music Festival e Scottish Television. É membro, desde 1978, da ISCM – Sociedade Internacional de Música Contemporânea.

Já no Brasil, Graham Griffiths foi Vice Presidente da Sociedade Brasileira de Musicologia (93/95) e membro titular da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (95/96).

Fundou os seguintes grupos com os quais vem atuando intensamente:

 

  • em 89, Grupo Novo Horizonte de São Paulo (dedicado à música contemporânea);
  • em 95, Camerata Novo Horizonte (orquestra barroca e coro de câmara);
  • em 96, o Trio Ives;
  • em 97, a Sinfonieta Novo Horizonte e o Canto Colonial de Curitiba;
  • em 99, o Canto Colonial de São Paulo.



Volume 4 da antologia Brasil! New Music! – projeto premiado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) por sua contribuição à música contemporânea brasileira.

Graham Griffiths desenvolve intensa atividade como divulgador da música brasileira contemporânea e colonial tendo, nos últimos anos, apresentado cerca de 300 concertos em 14 Estados brasileiros e em turnês pela Europa. Em 95, levou para a Escandinávia o Grupo Novo Horizonte de São Paulo. O último concerto da turnê foi gravado, ao vivo, nos estúdios da Rádio da Dinamarca e tornou-se o terceiro volume da série O Concerto de Copenhague, lançado em agosto de 96.

Em 93, foi premiado pelo CD Brasil! New Music!, do Grupo Novo Horizonte de São Paulo, pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte. De sua discografia destacamos, também, o CD Officium 1816, nomeado para o prêmio Sharp de 1999 e gravado pelo selo Paulus (1998) no qual Griffiths regeu a Camerata Novo Horizonte de São Paulo, interpretando obras de José Maurício Nunes Garcia.

Atuou como regente convidado das seguintes formações:

 

  • Orquestra Sinfônica do Estado do Paraná;
  • Orquestra Sinfônica da Bahia;
  • Orquestra Sinfônica de Santo André;
  • Sinfonia Cultura (Orquestra da Rádio e Televisão Cultura);
  • Camerata Antiqua de Curitiba;
  • Orquestra de Câmara da Cidade de Curitiba;
  • Banda Sinfônica do Estado de São Paulo.



CD gravado em 1998, pelo selo Paulus, no qual a Camerata Novo Horizonte de São Paulo é regida pelo Maestro Graham Griffiths e interpreta obras do Pde José Maurício Nunes Garcia (1767-1830). Autor de mais de 600 composições, Nunes Garcia é considerado o mais importante compositor das Américas do período colonial.
CD nomeado para o prêmio Sharp de 1999.

Regeu a Orquestra Curitiba Pops, fundada pelo Banco Itaú. Essa formação tinha o jovem como público alvo e seu repertório era composto especialmente por grandes trilhas escritas para o cinema. Participou por vários anos do Festival Internacional de Música Antiga de Curitiba como diretor do curso ” A Interpretação da Música Colonial Latino-Americana”. Regeu 3 concertos do grupo Canto Colonial de Curitiba no II Festival UNESCO de Música Renascentista y Barroca “Misiones de Chiquitos”, na Bolívia (98). Há vários anos, vem sendo convidado pelo Instituto Moreira Salles/Poços de Caldas para ministrar master classes e se apresentar como regente e pianista.

Regeu a Camerata Novo Horizonte na ocasião em que a orquestra foi honrada com o convite para participar das comemorações oficiais do Centenário da Academia Brasileira de Letras, em 97, no Rio de Janeiro.

Atualmente, além de suas atividades como regente e concertista, é Diretor de Música da Fundação Anglo Brasileira de Educação e Cultura, St.Paul’s School, em São Paulo. É articulista da Revista Concerto para a qual escreve, mensalmente, a coluna “Como ouvir música criativamente”.

ENTREVISTA

Marcílio Fagner Onofre

Senhor Maestro Graham Griffiths, gostaria de fazer uma pergunta: Um maestro rege orquestras, mas o quê rege um maestro? Será que apenas cursos são suficientes para formar um Maestro?


Graham Griffiths

Prezado Marcílio
Muito obrigado pela participação nesta entrevista. É uma boa pergunta! Claro, cursos não são suficientes para formar um maestro, como não são suficientes para formar qualquer um em qualquer atividade humana! Lembremos que alguns dos grandes nomes da música não fizeram curso nenhum para se tornar, pelos seus próprios esforços e imenso talento, os maiores nomes da cultura das suas pátrias: Schubert (Áustria), Elgar (Inglaterra), Padre José Maurício (Brasil). No caso de regência, acredito que estamos falando de uma das habilidades musicais mais complexas que existem, embora, paradoxalmente, dependa menos dos “benefícios” de um curso. Isso deve-se ao fato do regente ser movido primeiramente pela paixão de interpretar uma obra – quer seja coral ou orquestral – e é obrigado a buscar pelos seus próprios esforços os meios para conseguir isso.
Há várias perguntas em seguida que tratam de assuntos relacionados. Peço que você leia todas para ter uma noção mais ampla da minha filosofia nesse assunto.
Abraços,

 

Miguel Torres

Caro Maestro. Sou estudante do curso de regência da Universidade Federal do Rio de Janeiro e gostaria de saber do senhor:
1) apesar de ser um curso e de ter um currículo muito bom, acho que faltam matérias praticas. Só começamos a lidar com orquestra no 4º ano. Como fazer para não desanimar nestes 3 primeiros anos?
2) O senhor não acha que seria fundamental existir um convênio entre as escolas de música e as orquestras para que os alunos pudessem assistir ensaios, e até mesmo estagiar nas orquestras, pois estágio não existe neste curso?
3) No exterior onde estão as melhores escolas? Nos Estados Unidos ou na Europa? É muito difícil estudar no exterior? Um abraço, Miguel


Graham Griffiths

Caro Miguel,
Desejo boa sorte e muito sucesso para você no seu último ano do curso de regência! Você é mesmo privilegiado em se formar naquela instituição onde trabalhavam muitos dos maiores nomes da música brasileira! Vou tratar das suas perguntas em seqüência. Não deixe também de ler as outras respostas nesta entrevista:
1) Porque você imagina que a sua universidade deve providenciar aos seus alunos de regência uma orquestra para eles treinarem? Você jamais tocou numa orquestra sob a regência de alguém que não sabe reger ainda? Eu sim, porém, graças a Deus, poucas vezes! É uma situação que, na minha opinião, nunca deveria acontecer. E por isso considero que a melhor formação para um regente é de se tornar primeiro um concertista num instrumento (não importa qual), ganhando experiência na arte da interpretação e se tornando respeitado por isso. O regente tem que ser respeitado pelo artista que ele é. O fato de ficar em pé lá em frente não dá direito a ser respeitado por ninguém. Sendo aluno da UFRJ, você está num ambiente ideal para chamar colegas para cantar ou tocar qualquer música (sob a sua direção, claro) assim que você conseguir convencê-los a fazer isso! A regência não é um emprego que precisa de treinamento. É uma convocação. Assim, tendo a paixão para ouvir uma certa música, e convicto de que uma platéia vai adorar ouvir, surpresa pela sua beleza / virtuosidade / drama, enfim pelas qualidades da música, você tem toda a essência para ser um regente. Paixão é inútil se não produz, não é?
2) Miguel, me desculpa a repetição, mas: Porque você imagina que a UFRJ tem o dever de fazer tudo para você?! Quem é o regente no Rio que você mais admira? Entre em contato com ele/ela já e peça permissão para assistir tal ensaio ou ensaios, levando com você as partituras e seguindo o processo de aprendizagem de perto. Será que vai ser recusado? Duvido. O fato de você já ter pensado nisso é um bom sinal. Os seus colegas de curso podem ficar na lanchonete reclamando da falta de oportunidade, falta de orquestra para treinar etc. até alguém perguntar: cadê o Miguel hoje? Pois eu sei. Ele está no Theatro Municipal assistindo o último ensaio da Quarta de Brahms com Kurt Masur etc. Vai em frente.
3) Há grandes conservatórios tanto nos EUA quanto na Europa. Mas, não pense em ir para lá com o intuito de ter um curso melhor. O meu conselho é de direcionar toda sua energia e interesse em regência na criação de grupos e concertos e contatos e experiências agora, aqui no Brasil. O importante é lutar pelo seu espaço. Faça a sua escolha de uma música que quer muito ouvir e mostrar, escreva as partes novas à mão, bonitas e legíveis, convide os seus músicos pessoalmente, ensaie individualmente com cada um, ajude e aprenda, marque o esquema de ensaios, reserve as salas, prepare o palco com cadeiras e estantes prontas , providencie o lanche no caso de precisar. Após o ensaio, feche as estantes, peça a um amigo(a) artista o design de um pôster “em estilo apropriado”. Trate de com energia divulgar bem o concerto, afixando os cartazes na paredes um por um, pessoalmente. Leia tudo a respeito do compositor, do texto, se tiver, e do contexto da primeira apresentação da obra. Apaixone-se pela “missão” de apresentar esta obra. Não desista! Bem vindo ao mundo emocionante da regência. E, o mais importante, não imagine que o telefone vai tocar depois. Jamais.
Continuando na próxima resposta…..

 

Miguel Torres

Caro Maestro: Eu já lhe enviei minhas perguntas mas ficou faltando uma: Qual o conselho que o senhor dá para estudantes de regência e regentes recém-formados que não têm (pelo menos no Brasil) nenhuma previsão de reger grandes orquestras, para que não desanimem?


Graham Griffiths

Caro Miguel,
Espero que você já saiba a minha resposta! (Ver acima). Fique em contato. Aguardo o seu convite com muita expectativa.
Tenha confiança e acredite em si mesmo.
Abraços,

 

Deise Previato

Maestro:
Embora aficionada por música, na acepção mais ampla, tenho muita dificuldade em aceitar (melhor dizendo, meus ouvidos), a música contemporânea de um modo geral. O maestro acredita que isso deve-se a falta de conhecimento mais profundo desse tipo de música, ou realmente a música contemporânea é mais difícil de digerir pela sua complexidade harmônica?


Graham Griffiths

Cara Deise,
Muito obrigado pela sua pergunta. Não diria nunca que um maior “conhecimento” da música nova é a chave para a sua melhor apreciação, mas sim uma maior convivência com a música nova, isso sim! Tenho dado vários cursos sob o tema Como Ouvir a Música Contemporânea (ou algo assim). Claro, é possível adquirir uma apreciação maior através de um curso onde o ouvinte é exposto a muitas gravações e explicações. Porém, não tenho a maior dúvida que o caminho melhor é de assistir muitos concertos de música nova ao vivo, se envolvendo com os intérpretes e compositores, conversando com eles no intervalo e após o concerto, assistindo os ensaios e, de modo geral, entrando no mundo da música nova. No caso de uma estréia mundial, é mesmo emocionante para os que estão no palco participar no “nascimento” de uma criação musical, particularmente de um compositor brasileiro. Após muitos anos de ver o processo de todos os ângulos (como compositor, intérprete e palestrante), posso afirmar que a porta de entrada para o ouvinte não é puramente pela música em si. Deise, você jamais tentou ouvir uma ópera pela rádio? Mesmo o aficionado pela ópera desiste logo! Você tem que estar lá! É a mesma experiência com a música contemporânea. Tem que estar lá. É fascinante ver o palco lotado de instrumentos de percussão (muitas vezes de culturas distantes: China, Japão ou Tailândia) e de perceber os instrumentos curiosos (clarone, flauta baixo etc.) que formam o mundo sonoro da música “clássica” de hoje. Sobre a questão da dificuldade de “digerir”, isso não é um problema só da música moderna. Cheguei a conhecer muitas pessoas através do meus cursos que se apaixonaram pela experiência ao vivo da música contemporânea, porém ainda têm grandes “dificuldades” com, por exemplo, as sinfonias de Bruckner, as óperas de Wagner, até as Paixões de Bach. O meu conselho é esse: não fique presa pela sonoridade. Corra atrás de concertos e bata nas portas dos camarins!

 

Eliane Dutra

Temos visto o trabalho de algumas pessoas, formadores de opinião, ligadas a arte tal como bale, música, teatro, esporte, procurando interagir com a classe mais empobrecida da sociedade, buscando usar a arte como meio de integração de crianças e jovens com a cultura, lazer e com a própria sociedade. Tal trabalho é muito valioso, pois distancia esses jovens da criminalidade e drogas. Gostaria de saber o que o Maestro pensa a respeito e se já teve ou tem algum projeto semelhante?


Graham Griffiths

Cara Eliane,
Obrigado pela sua pergunta, que mostra uma consciência muito sensível em relação à música e como ela tem poderes para ajudar a humanidade para o bem. Já participei em vários projetos do tipo que você menciona e sempre tem sido uma experiência maravilhosa, incluindo vários projetos aqui no Brasil. Entre muitos na Escócia antes de vir para cá, lembro com um carinho especial o concerto na noite da Classical Aid para Etiópia quando a Glasgow Chamber Orchestra participou – com milhares de orquestras ao mesmo tempo pelo mundo todo – tocando o Adagio de Samuel Barber acompanhando um filme com cenas comoventes da fome na Etiópia. Foi a única vez que chorei no pódio enquanto regia. Em geral Eliane, considero todo evento musical uma oportunidade de unir a sociedade em torno da arte. E você nunca sabe quem está ouvindo e que efeito o seu concerto está causando. Por exemplo: Faz tempo que usamos uma espécie de pesquisa de mercado nos concertos aqui em São Paulo (mesmo quando tocamos no Rio e outras cidades). Uma vez, a Camerata Novo Horizonte apresentou um Concerto de Natal no Mosteiro de São Bento no velho centro de São Paulo. Entre as muitas respostas ao nosso questionário achamos o seguinte: “Parabéns pelo concerto maravilhoso. O impacto foi tão grande que afastou os meus sentimentos de suicídio…..” Imagine só!! O poder da música é muito grande mesmo, e como intérprete você tem de entender que não há um só perfil social de “Quem é menos afortunado”. Em qualquer momento, em qualquer lugar a música e a sua apresentação podem estar ajudando qualquer pessoa muito profundamente. Eu sou de uma família de médicos, porém me tornei músico; mas, naquela noite, me senti digno de me considerar parte da nobre profissão de Hipócrates e São Lucas.
Com meus abraços,



Eliane Dutra

Certa vez ouvi de um amigo que em Viena as pessoas costumam perguntar aos amigos e até aos estrangeiros, de uma forma bastante direta – Qual o instrumento musical que você toca? – e não – Você toca algum instrumento? Imagino que isso deve-se ao fato de ser parte da grade curricular de qualquer criança e adolescente o estudo da música, assim como a matemática, a língua, a ciência, etc. Como você vê a educação musical para crianças num país onde nem a educação básica tem prioridade? Você acha que seria possível um dia copiarmos esse modelo, uma vez que já temos exemplos de escolas (mas só as particulares) que têm em sua grade a iniciação à música e é sabido que deu certo?


Graham Griffiths

Cara Eliane,
A educação musical me interessa muito. Há muitos “métodos” e “escolas” de ensino musical, porém uma coisa é reconhecida mundialmente: a educação musical é fundamental não somente pela musicalidade da criança, mas também, ou sobretudo, pelo desenvolvimento da criança como um todo. É bem reconhecido que a habilidade musical ajuda a criança a apreender as matérias “acadêmicas”, além de estimular um senso de responsabilidade social. Eliane, esse é um assunto que exige muito espaço a ser explorado devidamente, não é? Por enquanto, e em resposta às suas perguntas, não vejo porque o Brasil não possa adquirir uma cultura mais iluminada em relação à música. O problema é que vivemos num mundo em mudança constante, devido principalmente ao progresso eletrônico dos meios de comunicação. A sociedade está tão fascinada com isso que acaba confundindo quantidade com qualidade. Porém o que adianta ter Internet, e-mail e TV à cabo se 99.9% da informação disponível não é de interesse. A velocidade da mudança está deixando o processo gradual da aprendizagem musical para trás. Há muitos modelos a seguir: países onde existe incentivo aos pais e crianças a terem aulas (e instrumentos) de graça durante o fase inicial, enquanto os professores são bem remunerados de maneira garantida. A profissão em si tem que reconhecer que há um círculo de conexões. Concordo, enquanto a educação não tem prioridade no Brasil, a educação musical vai ter que esperar na sombra por um bom tempo. É imperdoável.
Vamos rezar por um milagre.
Lamento não poder ser mais otimista. Se houvesse mais pessoas como você, Eliane!

 

Bruno Basseto

Como o senhor vê a situação da música de concerto no Brasil? O que mais o atraiu na música brasileira para que fizesse a opção de trabalhar em nosso País?
Como o senhor imagina que será a música no século XXI, em particular a música brasileira?
De certa forma, a música do século XX tornou-se muito distante do público, que acaba não vivenciando e muitas vezes nem compreendendo a música do seu próprio tempo. O senhor concorda com esta posição? Na sua opinião essa situação vai manter-se no próximo século?


Graham Griffiths

Caro Bruno,
A situação da música de concerto no Brasil é mesmo muito precária, não obstante as leis de incentivo etc. O fato é que o governo central não se dispõe a valorizar a música e espera que tudo seja salvo através do patrocínio. Infelizmente, com poucas e notáveis exceções, o patrocinador enxerga patrocínio à cultura como uma forma de marketing, que é medido em termos de números e sempre em torno de tempo imediato. Estes conceitos favorecem a música popular (com suas platéias gigantescas ) e os eventos altamente “televisionáveis” (shows ao vivo de Copacabana etc.). Não foi “a situação da música de concerto no Brasil” que me atraiu ao Brasil, em 1986, e que me amarra aqui desde então. Desde que lembro ter conhecimento da música de Villa-Lobos senti a vontade de vivenciar o Brasil. Ainda considero Villa-Lobos um dos grandes compositores do século XX. Em seguida, ao conhecer Ouro Preto e a nova geração de musicólogos brasileiros, os garimpeiros de manuscritos do passado musical, me apaixonei pela música Colonial no Brasil e, em seguida, dos outros países da América Latina. Há um certo idealismo nisso que me atrai!
Em resposta à sua pergunta sobre a Música Nova, por favor leia as respostas acima que tratam desta questão. O fato que o público de hoje não “acompanha” a direção que a música está tomando não me assusta, porque de modo geral foi sempre assim. Mozart foi enterrado como indigente devido a total falta de comunicação entre a música mais avançada dele, que era de longe “complicada demais” para o público vienense da época. Temos que dar mais conta pela realidade de que ele se recusou de amenizar a sua música e pagou o último preço por isso. Não vejo muita diferença entre este comportamento e o dos muitos Santos cristãos que foram sacrificados por não desistir das suas crenças. Historicamente o compositor brasileiro não está muito longe disso. (Pode incluir os maestros e todos os músicos também, viu!).
A situação só vai mudar no século XXI se voltarmos às idéias dos Gregos de exigir que nossos dirigentes sejam ou astrônomos, matemáticos, filósofos ou músicos. Então, Caetano para Presidente! Você concorda? Obrigado pela participação.
Abraços,

 

Lya LLerena e Valéria de Mendonça

Como o maestro vê a tal popularização da música através dos ingressos acessíveis mas que de fato acabam chegando na mão dos cambistas ou nos convites/contatos influentes? Como por exemplo as temporadas líricas e a atual Sala São Paulo.
Não cabe ao músico a responsabilidade da situação, porém tentar mudar esta situação ou criar algum tipo de projeto/protesto para que pelo menos o público de baixa renda e interessado de fato tivesse um pouco mais de boa música e direito a formação musical. Sendo o brasileiro dito um povo amante nato da música clássica.


Graham Griffiths

Prezadas Lya LLerena e Valéria de Mendonça
Entendo a sua preocupação com esse assunto. Não me sinto capaz de oferecer uma solução aqui, a não ser a de sugerir um contato intenso com os jornais principais e a mídia em geral cobrando que eles dêem cobertura a esse problema. Porém, de modo geral, os programas de notícias na TV relatam os casos, embora raramente tomem o que eu chamo de “o segundo passo”. Ou seja, colocando um jornalista de plantão para perseguir a matéria até a sua conclusão. Na Europa, os jornais adoram levantar a bandeira da opinião do público em nome da Justiça. Eles acabam vendendo mais jornais e ganhando uma reputação de “Campeões do Povo”, não importando o assunto, nem mesmo se a custo da reputação dos outros jornais. Pode-se tentar…
Boa sorte!

 

Érica Hindrikson

Para você, o que é necessário para se tornar um regente de orquestra? Que tipo de formação a pessoa deve buscar? Se uma pessoa não tiver um dos requisitos básicos para a regência, é válido ela buscar preencher essa lacuna mesmo depois de começar a atuar na área escolhida?
Um abraço!!! Érica


Graham Griffiths

Cara Érica,
Muito obrigado pelas boas perguntas. Me deixa falar primeiro que faz tempo estou seguindo a sua ascendência como regente e você está de parabéns! O fato que você tem estas dúvidas indica claramente que já tem algo mais importante que a “formação”. Tem humildade para sentir o que talvez ainda falta e a vontade de preencher essa lacuna antes de embarcar na próxima fase da sua carreira. Quantas vezes assistimos concertos dirigidos por regentes que não entendem o que estão regendo? Não em termos de ritmos e notas, mas em termos da linguagem e do “sentido”. Por isso, os melhores regentes vêm muitas vezes de uma outra disciplina musical, atuando durante muitos anos como violinista (Elgar) ou pianista de concerto (Solti/Levine) ou instrumentista orquestral (Masur) ou compositor (Mahler). A técnica é fundamental, claro, porém na fase de preparo procuro ler e ler e ler sobre música, sobretudo sobre o compositor e as circunstâncias da estréia da sua música. Procuro me apaixonar pela música que tenho em vista para interpretar pois, ao meu ver, ela tem que ser o algo mais importante na minha vida naquele momento de reger. Procuro sempre escolher um repertório que me deixa comovido e que acho que vai mexer muito com o público. Não me interessa interpretar música só pelo fato de trabalhar. Érica, você está regendo uma das melhores orquestras no Brasil e uma que é formada por muitos dos melhores músicos jovens em São Paulo. É uma oportunidade de ouro para aumentar cada vez mais o nível dessa orquestra e para você de expandir a sua capacidade em ser uma regente cada vez mais profunda e inspiradora. Finalmente, diria que nunca paramos de aprender durante a vida toda, não é? O fato de que você deseja tanto “preencher as lacunas” é um sinal que você reconhece a realidade do seu próprio desenvolvimento, e que este é um continuum. Não pára, nunca. Dizem que os pianistas só começam a entender a música pianística, com algo que aproxima certeza, após chegar aos sessenta anos! E os regentes? Pergunte ao Otto Klemperer!
Boa sorte, e com grandes abraços de sempre!

 

André e Arthur Mitchell

1- O que é música de câmara, recitais e música contemporânea? 2- Quantos concertos a Camerata Novo Horizonte já realizou? 3-Quais são as suas atividades como Diretor de Música da St. Paul’s School?


Graham Griffiths

Caros amigos jovens!
1. Que prazer em receber essas perguntas de vocês, filhos de Paul (trompete principal da Orquestra Sinfônica Municipal do Theatro Municipal de São Paulo) e Mara (fotógrafa). Veja bem, André e Arthur: A Música de Câmara é o termo para descrever música tocada por um número pequeno de pessoas; um número que não precisa de uma Sala de Concertos. A sua sala em casa seria o lugar ideal. Os formatos mais comuns são Quarteto de Cordas (quatro pessoas) e Trio de Piano (que não é para três pianos, mas para violino, cello e piano). Quintetos tem cinco pessoas, Sextetos tem seis, Septetos tem sete, Octeto tem oito e Noneto tem nove. Fácil, não é, só que tome cuidado com o “Trio Sonata”. Deveria ser para três sendo um trio, porém é para quatro!
Música contemporânea é um termo um pouco confuso. Nos EUA, terra do seu pai, “contemporary music” quer dizer música composta por alguém que está ainda vivo. No Brasil, Música Contemporânea quer dizer música do Século XX como um todo. Nos EUA e na Europa, a música do século XX é “Modern Music”. Não sei como chamar a música composta desde o início desse ano agora. Ainda estamos no século XX? Vocês tem uma sugestão?
2. Na minha imaginação a Camerata já fez centenas de concertos. Infelizmente, na realidade, a Camerata não tem feito muitos considerando a reputação que o conjunto tem. A razão disso é simples. Se tiver trompetes no programa não confirmo qualquer convite sem ter certeza que o seu pai pode tocar naquela noite…
3. As minhas atividades como Diretor de Música da St Paul’s School incluem um grande elemento de administração, um pouco de ensino em sala de aula, muitos ensaios, e muitas reuniões. Há 25 professores de música no departamento. Uns 500 alunos recebem aulas de musicalização semanais e uns 200 destes também aprendem um instrumento através de uma aula particular semanal. Há três corais, uma pequena orquestra infanto-juvenil, grupos de percussão brasileira, flautas doces, violões clássicos, ensino de Violino pelo Método Suzuki e musicalização pelo Método Kodaly. Os alunos apresentam, em média, quinze concertos por semestre. Há também uma vigorosa atividade de bandas de música popular de todas as idades, além de shows musicais e concertos comemorativos de todos os tipos. Temos a grande felicidade de ocupar parte de um prédio que foi construído recentemente para abrigar os departamentos de Drama e de Música. O teatro tem uma acústica boa para todo estilo de música e é flexível em termos de tamanho, que é bom quando os interpretes são bem jovens e produzem pouca sonoridade ainda. A melhor parte da vida é que recebemos, da direção da escola, um grande apoio para desenvolver a Música – no ensino e fora do horário acadêmico, para o bem dos alunos e da comunidade escolar em geral, que inclui professores, país e funcionários como parte da “família” toda.
Obrigado pelas perguntas excelentes, André e Arthur! Até mais!

 

Wendell Kettle

Gostaria que o Maestro falasse do seu trabalho com um quinteto de cordas que organizou e se apresentou em 1996 ou 1997 (não me lembro exatamente) no Festival Ritmo e Som do Instituto de Artes da UNESP. Gostaria ainda que ele falasse do repertório para essa formação: quinteto (piano, 2 violinos, viola e cello). Obrigado.


Graham Griffiths

Caro Wendell,
Obrigado pela carta, mas confesso que não sei do que está falando. O Trio Ives apresentou-se uma vez na UNESP no Festival de Ritmo e Som com o Trio No. 2 de Shostakovitch (violino, violoncelo e piano). Aliás, Shostakovitch escreveu um Quinteto para a formação que você menciona. (Toquei este enquanto no Colégio na Inglaterra nos meados do século 18…….). É uma ótima música, aliás que é muitas vezes o caso com obras para a formação que você menciona. Ver os Quintetos de Dvorak, Schumann, Brahms, Franck, Dohnanyi, Pfitzner, Elgar (e Shostakovitch). O quinteto de Schubert é para outra formação – com contrabaixo no lugar do segundo violino, como toda truta bem sabe. Abraços,

 

Hugo Fortes

Quais as tendências que tem surgido na música erudita contemporânea recente? Como fica o papel do Maestro diante da música eletrônica?


Graham Griffiths

Prezado Hugo Fortes,
Parabéns pela sua entrevista. Lamento não ter enviado uma pergunta para o seu divertimento! Em resposta à sua, há tantas tendências que o vocabulário musical está esgotado com “-ismos”. Durante o século XX houve uma acelerada na elaboração de linguagens novas que chegamos à virado do milênio com uma única tendência: a que deixa cada compositor criar uma nova linguagem musical ( e sistema de notação ) com cada nova composição! Lembremos que a linguagem “barroca” era uma linguagem aceita na Europa toda, reconhecível do norte da Escócia ao sul da Itália, que durou uns 150 anos…. Acho a diversidade da música hoje algo emocionante e não me preocupo com o “papel do maestro”. Em música puramente eletrônica não há papel para nenhum músico. A música eletroacústica une a tecnologia com os intérpretes numa maneira muito estimulante. Já atuei em várias ocasiões dirigindo estréias mundiais de novas obras musicais deste gênero. É sempre algo muito intrigante tanto para o ouvinte quanto para os intérpretes, e para o compositor. O músico costumava ser, nestes contextos eletroacústicos, o “escravo” da fita; porém recentemente a nova tecnologia da interatividade tem colocado o computador no palco, agindo ( sob direção do compositor ) em tempo real, como todos os seus colegas humanos. Creio muito nisso como umas das direções da composição e execução musical do futuro próximo. Em termos do papel do maestro, não há diferença entre isso e uma obra sinfônica, ao meu ver. Há um trabalho a ser feito: que é ajudar os interpretes a realizar a música no melhor nível possível, sempre tentando alcançar uma expressão do sentido que o compositor pretendia, ou a minha interpretação disso. Considero que todo músico deve pelo menos tentar se expressar em composição própria, para chegar a um entendimento melhor da arte dos compositores cujas obras garantem para nós uma vida nesta maravilhosa profissão!
Sucesso e felicidade em 2000. Abraços,

Comunidade Piano Class

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