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A arte de dominar o silêncio ao piano

Seria curioso ler um artigo sobre o silêncio escrito por uma pianista? Nem um pouco. Ainda esta semana vi uma charge brincando com a peça 4’33” de John Cage, onde o pianista não aguentou ficar tanto tempo em silêncio e começou a tocar qualquer coisa (rsrsrs).

O silêncio em música tem tanto valor quanto o som. É nele que a música respira, cria suspenses densos e transmite as mais variadas emoções. Pensar no silêncio também é pensar no fim do som, em como terminar cada nota, cada frase, cada ideia musical. Ou o início dele, sua origem no tempo.

O silêncio pode ser brusco, repentino ou doce, esfumaçado. Ele pode denotar reflexão, sonho, dor, angústia ou simplesmente o nada, o ócio do tempo que passa como se estivesse parado. Ele pode ser tocado em ff (fortíssimo) ou pp (pianíssimo). Se você nunca tinha parado para pensar no silêncio que existe em suas músicas, ouça-as, leia-as todas novamente e pense como executará cada respiração, cada pausa, cada início ou término do som.

Agora, falando um pouco mais objetivamente, onde achamos o silêncio?

A arte de dominar o silêncio ao piano - Fernanda Machado

Foto: reprodução

Vamos começar pelo princípio, antes do som.

Antes de começar uma música, há o silêncio. O terrível e constrangedor silêncio prévio à primeira nota. Ele é cheio de perguntas, possibilidades, qualquer emoção pode acontecer e nascer dele. Algumas peças pedem esta sensação tensa que o silêncio inicial pode trazer, pois ele ajuda a segurar o público “na ponta dos pés”, trazer seus nervos à flor da pele e tornar o primeiro som muito mais especial – seja ele uma doce insinuação do que vem ou a explosão de uma acorde cheio que entrega tudo de bandeja. Outras peças devem começar ignorando-o por completo, como se ele nem estivesse ali. Fazemos de conta que já estávamos tocando antes mesmo de sentar ao piano e o primeiro som sendo a continuação da imaginação sonora do pianista (claramente ouvida pela emoção do público presente). Ou ainda, como se ele já não existisse porque os passos do pianista o destruíram por completo, o movimento do agradecimento inicial, as palmas da plateia e não deixamos que ele se intrometa nesta introdução teatral da peça, trazendo a primeira nota (geralmente já cheia de personalidade) de dentro do movimento iniciado com a entrada no palco.

Os demais silêncios são:

As pausas: términos de uma ideia, passagens entre ideias, início de mais uma novidade … ou será uma repetição? Jamais subestime o valor de uma pausa. Se ela não for devidamente tocada, pode estragar todo o trabalho empregado na produção do som. Podemos perder nossos ouvintes numa pausa. Cuidado!

As respirações: música também respira, tem coração e se emociona. As respirações dão o clima principal da música. Ligaduras de 2 notas em Mozart: soluços; ligaduras gigantescas de Chopin: a agonia da falta de ar; ligaduras de compassos inteiros: a marcação rítmica das danças; respirações de intenção entre as milhares de semicolcheias de Bach: o silêncio escondido dentro do som; respirações entre ideias repetidas: ar para insistir e tentar convencer finalmente; … há tantas respirações diferentes e parece que tanta gente simplesmente esquece de respirar. Nãããããão!

Os staccatos: uma articulação que brinca com o silêncio para instigar a imaginação de que o som ainda está lá.

Os non-legatos: outra articulação que usa o silêncio e ilude o ouvinte numa ligadura falsa e cheia de malícia.

E os portatos: entrecortados pelos silêncios tão secos e tão dramáticos.

Há tantos outros, mas por hoje podemos falar apenas destes. Não vamos nos encher de silêncios demais, os sons podem ficar enciumados.

E o por fim, o fim. Um som derretido sobre as teclas até que as mãos caiam sobre os joelhos, ou esvaindo-se como uma nuvem de vapor em direção ao céu, ou arrancado do instrumento a força e congelado no ar, ou despedindo-se aos poucos enquanto transforma-se e encanta ao ficar preso apenas pelo pedal, seja como for, todos os sons nos levam ao silêncio. Qual silêncio? Vazio, pois o som gastou toda a sua emoção? Esperançoso, violento, cheio das lembranças de um som que não existe mais? Cada peça pede o seu, cada interpretação pede o seu próprio silêncio.

E como tocar estes silêncios? Para tocar um silêncio é preciso conhecê-lo. Ache os silêncios da sua música, compare-os com os silêncios da vida, da literatura, do teatro, da dança para que ele seja seu conhecido e aliado na interpretação musical. Pinte seus silêncios com as mais diferentes tonalidades, texturas e emoções. Para isso então faça e viva seus silêncios intensamente.

Depois é só preencher os intervalos com os sons que sobraram. Sua música está pronta!

Por Fernanda Machado – pianista.


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